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IPOD DE BABEL Nº 3 | PODCAST À RASCA

“Ar livre! Que ninguém canta com a corda na garganta!…”, proclamou Miguel Torga, na “Cântico do Homem”, em 1950.  Hoje, é um bom dia para lembrar que o ar (ainda) é de todos.

                                                                    *


“Mas quando nos julgarem bem seguros,

cercados de bastões e fortalezas,

hão-de ruir em estrondo os altos muros

e chegará o dia das surpresas.”

(José Saramago, “Ouvindo Beethoven”, in “Os Poemas Possíveis”, 1966)

Xutos e Pontapés, Cerco, “Barcos Gregos” (1986)

“O medo vai ter tudo

pernas

ambulâncias

e o luxo blindado

de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém o veja

mãozinhas cautelosas

enredos quase inocentes

ouvidos não só nas paredes

mas também no chão

no teto

no murmúrio dos esgotos

e talvez até (cautela!)

ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo

fantasmas na ópera

sessões contínuas de espiritismo

milagres

cortejos

frases corajosas

meninas exemplares

seguras casas de penhor

maliciosas casas de passe

conferências várias

congressos muitos

ótimos empregos

poemas originais

e poemas como este

projetos altamente porcos

heróis

(o medo vai ter heróis!)

costureiras reais e irreais

operários

(assim assim)

escriturários

(muitos)

intelectuais

(o que se sabe)

a tua voz talvez

talvez a minha

com a certeza a deles

Vai ter capitais

países

suspeitas como toda a gente

muitíssimos amigos

beijos

namorados esverdeados

amantes silenciosos

ardentes

e angustiados

Ah o medo vai ter tudo

tudo

(Penso no que o medo vai ter

e tenho medo

que é justamente

o que o medo quer)

O medo vai ter tudo

quase tudo

e cada um por seu caminho

havemos todos de chegar

quase todos

a ratos”.

(Alexandre O’Neill, “Poema pouco original do medo”)

Zeca Afonso, Ao Vivo no Coliseu, “Vampiros” (1993)

José Mário Branco,  Ser Solidário, “Sopram Ventos Adversos” (1982)

 

“Os ratos invadiram a cidade

povoaram as casas  roeram

o coração das gentes.

Cada homem traz um rato na alma.

Na rua os ratos roeram a vida.

É proíbido não se ser rato

Canto na toca. E sou um homem.

Os ratos não tiveram tempo de roer-me

os ratos não podem roer um homem

que grita não aos ratos.

Encho a toca de sol.

(Cá fora os ratos roeram o sol).

Encho a toca de luar.

(Cá fora os ratos roeram a lua).

Encho a toca de amor.

(Cá fora os ratos roeram o amor).

Na toca que já foi dos ratos cantam

os homens que não chiam. E cantando

a toca enche-se de sol.

(O pouco sol que os ratos não roeram).”

(Manuel Alegre, “Variações sobre

O POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO” de Alexandre O’Neill)

Pedro Jóia, À Espera de Armandinho, “Maldito Fado” (2009) 


 “A cantiga é uma arma

eu não sabia

tudo depende da bala

e da pontaria

Tudo depende da raiva

e da alegria

a cantiga é uma arma

e eu não sabia”.

(José Mário Branco, “ A Cantiga é uma Arma”)

Paulo de Carvalho, “E Depois do Adeus” (1973)


(leitura do comunicado do Comandante Militar à República, de 26 de Agosto de 1931).

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