iPOD DE BABEL Nº 1| VALENTINE’S DAY
a coisa será mais ou menos assim: música e livros que não se dão mal à mesa. o primeiro começa lamechas, à boleia do dia de são valentim.
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Frank Sinatra, Francis a & Edward K, ”All I Need Is the Girl” (1967, Reprise)
“Está quase a habituar-se à ideia de perder aquela mulher - é perito em perder o que nunca foi seu -, quando, certo noite, se cruza novamente com ela. A princípio, não a reconhece. Traz o cabelo solto, veste calças de ganga, calça umas sabrinas de cabedal. Caminha. O juiz percebe que ainda vem trôpega, como um vitelo acabado de nascer, as pernas bambas habituam-se ao peso de um corpo que se movimenta devagar. Em breve, caminhará como ele. Nessa noite, o juiz não consegue dormir. Qualquer coisa que o atormenta. No dia seguinte, mal sai do tribunal, compra uns ténis de corrida com nome de cavalo alado, uma camisola sem mangas, uns calções justos com forro térmico. Volta a cruzar-se com a mulher nos dias seguintes. Ela caminha. Cada vez mais segura. Ele corre. Cada vez mais depressa. As suas passadas continuam a ser incompatíveis. Uma mulher que caminha não quer um homem que corre.” (Ana Cássio Rebelo, “Ana de Amsterdam”-blog).
The Beatles, Abbey Road, “Something” (1969, Apple)
“Essa enfermidade a que os amantes chamam de ciúme e a que melhor chamariam desespero raivoso tem por componentes a inveja e o menosprezo. Quando tal enfermidade domina a alma enamorada, não existe ponderação que a sossegue nem remédio que a possa curar.” (Miguel de Cervantes, in “Os trabalhos de Persiles e Sigismunda” (1617).
Annette Peacock, X~Dreams, “Don’t Be Crue”l (1979, Circa)
“Foi aos poucos que me apercebi de como era bela. Há pessoas assim. Que se revelam devagar, que não têm qualquer pressa em mostrar como são, em chegar ao nosso ombro, à nossa frente. Pessoas que têm o tempo do seu lado. O exacto contrário de mim que habito a ansiedade de todas as horas. A primeira vez que a vi nada vi a não ser uma cara, um corpo, gestos. Não me apercebi da claridade da sua face, do seu corpo longo, dos gestos lentos e delicados das mãos e dos braços, das suas incisivas palavras. (…).” (Pedro Paixão)
Kings Go Forth, The Outsiders Are Back, “Fight With Love” (2010, Luaka Bop Records)
“O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável. Fundamentalmente, uma inocência.” Fernando Namora, in ‘Jornal sem Data (1989) The Beatles, A Hard Day’s Night, “And I Love Her” (1964, Parlaphone) Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão, puxaste-me para os teus olhos transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua, ainda apanhámos o crepúsculo. As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar diferente inundava a cidade. Sentei-me nos degraus do cais, em silêncio. Lembro-me do som dos teus passos, uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas, e a tua figura luminosa atravessando a praça até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é, o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali, continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha essa doente sensação que me deixaste como amada recordação.” (Nuno Júdice, in ‘A Partilha dos Mitos”)
Bob Dylan, I Want You, Blond On Blonda (1966, Columbia)